quarta-feira, 6 de julho de 2011

FÁRMACOS UTILIZADOS NO TRATAMENTO DAS AFECÇÕES NEUROLÓGICAS DE CÃES E GATOS PARTE II

Texto muito bom e esclarecedor, pois não tive a chance de atender gatos com epilepsia. Não sabia que o diazepam via oral funciona bem em gatos. Outra coisa que chamou a atenção é que o autor cita que a difenilhidantoína é contra-indicada em cães e gatos...pergunto: E o medicamento EPISOL da Konig?? Diazepam + difenilhidantoína...Luz de algum colega????

Anticonvulsivantes e barbitúricos

Os anticonvulsivantes são medicamentos utilizados em pacientes que apresentam convulsões ou epilepsia. São utilizados como medicamento único em cães que apresentam epilepsia ou em associação com outros medicamentos quando a origem das convulsões se deve a uma alteração metabólica ou orgânica em progressão (MANNO, 2003; PELLEGRINO, 2003).
A maioria dos anticonvulsivantes possui efeito antiepileptogênico ou neuroprotetor. Este consiste no aumento da resistência a apoptose à qual conduz às crises convulsivas por meio de diferentes mecanismos. Por estes motivos, embora o animal não esteja livre das crises convulsivas, o dano que elas provocam será consideravelmente menor se o paciente for medicado, evitando a deterioração neuronal progressiva (MANNO, 2003; PELLEGRINO, 2003). (NÃO SABIA!!!!)
Poucas medicações eficazes em seres humanos podem ser apropriadas em cães, sendo o fenobarbital o mais indicado (ARIAS; NETO, 1999).
 O fenobarbital é uma medicação eficaz, segura, barata e com poucos efeitos colaterais além da sedação, sendo o fármaco de primeira escolha em cães e gatos, controlando de 60 a 80% dos cães epiléticos, caso a concentração sérica seja mantida dentro da faixa adequada (25-35 μg/mL) (CHRISMAN, 1997; BOOTHE, 1998; ARIAS; NETO, 1999; GASKILL et al., 1999; MAGUIRE et al., 2000; SILVA et al., 2006). Na experiência dos autores a dose de 2,5 mg/kg, VO, q12h é suficiente para cães adultos. Em filhotes geralmente é necessário doses superiores a 4 mg/kg, VO, q12h, variando de 4-8 mg/kg q12h (PODELL, 2004). Outros autores sugerem que em filhotes o fenobarbital seja administrado a cada 8 horas, devido à sua rápida metabolização nesta faixa etária (ARIAS; NETO, 1999).
Amaral e Larsson (2006) recomendam que a colheita com propósito de monitoração, seja realizada quatro semanas após o início do tratamento, devido à ampla variação na meia vida de eliminação. O nível sérico de referência normal é 20-40 μg/mL, porém o nível mais seguro é de 15-30 μg/mL e o ótimo está entre 20-25μg/mL, sendo o nível sérico acima de 35 μg/mL relacionado ao desenvolvimento de hepatotoxicidade (CHRISMAN, 1997; PODELL, 2004).
Os efeitos adversos mais comuns associados ao uso contínuo do fenobarbital incluem polidipsia, polifagia, letargia e sedação, além da hepatotoxicidade (PODELL, 2004).
Devido à baixa solubilidade em lipídios, quando aplicado pela via intravenosa (IV) demora 15-20 minutos para ultrapassar a BHE, levando, portanto 20-30 minutos para controlar a crise convulsiva. Portanto nos casos de estado epiléptico recomenda-se à administração de diazepam, que atua em 2-3 minutos, seguida pela administração de fenobarbital em doses fracionadas de 2-4 mg/kg a cada 20 ou 30 minutos. Ao invés de doses fracionadas pode-se aplicar uma dose de ataque de 12-24 mg/kg, IV, para que a concentração terapêutica seja atingida rapidamente, se for a primeira vez que o paciente estiver recebendo fenobarbital.
A epilepsia é considerada refratária ao fenobarbital quando o nível sérico terapêutico é atingido e o paciente continua a apresentar crises convulsivas em uma grande frequência. Não se pode considerar o paciente refratário ao fenobarbital se o nível sérico da medicação não foi avaliado, pois não existe correlação entre a dose oral e a concentração sérica (FARNBACH, 1984).
A avaliação sérica do fenobarbital nos primeiros meses e depois, no mínimo, anualmente é uma condição absoluta para o uso correto do fenobarbital. Em casos verdadeiramente refratários, deve-se considerar a utilização de um segundo anticonvulsivante. Se esta necessidade for comprovada, é importante ressaltar que a terapia jamais deve ser cessada subitamente, devido ao risco do desenvolvimento de estado epiléptico grave. Assim, o próximo passo é a adição de um segundo anticonvulsivante, sendo o brometo de potássio o mais indicado (PEARCE, 1990; ARIAS; NETO, 1999).
Os gatos são mais sensíveis aos efeitos sedativos e eliminam mais lentamente o fenobarbital, sendo assim o seu nível sérico ideal é de 10-20μg/mL, e dose de 1-2 mg/kg, q24h, inicialmente à noite e posteriormente a cada 12 horas. Os gatos podem receber 1-2 mg/kg de diazepam VO, q12h. Nos casos de epilepsia refratária é recomendada a associação do diazepam com o fenobarbital na dose de 0,5-2 mg/kg, dividida q8-12h (PODELL, 2004). O diazepam oral é anticonvulsivante efetivo em gatos, mas não em cães. O nível sérico é de 200-500mg/mL (CHRISMAN, 1997).
O brometo de potássio (KBr) possui uma estrutura molecular única comparada com os outros anticonvulsivantes. Ele não é metabolizado pelo fígado, podendo ser administrado em cães hepatopatas e é excretado pela urina (PEARCE, 1990).
Não é recomendado em gatos, sendo relatados problemas respiratórios. Cristais de KBr dissolvidos em água bidestilada (250mg/mL) e administrados na dose de 30 mg/kg, VO, q24h numa das refeições quando associada ao fenobarbital, ou 40 mg/kg, q24h quando usado isoladamente (PODELL, 2004).
Os clientes devem ser instruídos para que usem luvas, porque o KBr pode ser absorvido através da pele e é tóxico para seres humanos. (NÃO SABIA!!). Os níveis séricos efetivos de KBr variam de 500-1500 μg/mL (PEARCE, 1990). O nível sérico na monoterapia do brometo é de 2000-3000mg/L e quando associado ao fenobarbital é de 1500-2500mg/L (PODELL, 2004).
Outros fármacos pouco utilizados no tratamento da epilepsia são primidona, difenilhidantoina, clonazepam, ácido valpróico, carbamazepina, parametadiona, e clorazepato dipotássico (CHRISMAN, 1997), topiramato, lamotrigina, levetiracetam, zonisamida, gabapentina e felbamato (PODELL, 2004). Contudo a difenilhidantoína, o ácido valpróico, a carbamazepina não apresentam farmacocinética apropriada para cães e gatos, sendo portanto contra-indicadas.
O topiramato usado em combinação com o fenobarbital ou brometo de potássio, mostrou-se eficaz no controle de crises epilépticas de difícil controle em cães e é, portanto uma opção terapêutica para o tratamento de cães com epilepsia refratária (ADEODATO, 2005). Além de anticonvulsivante, a gabapentina pode ser usada para o tratamento da dor neuropática (MOREIRA, 2005).

Ainda não está bem comprovado o efeito protetor do tiopental e do pentobarbital sobre estruturas encefálicas envolvidas em estados convulsivos refratários.
Caso tenha sido administrado benzodiazepínicos ou fenobarbital a dose dos barbitúricos é de 3-15 mg/kg IV (SILVA et al., 2006).
Barbitúricos como: tiopental e pentobarbital têm demonstrado diminuir a pressão intracraniana depois de injúrias cerebrais devido à redução da demanda de oxigênio e glicose dos tecidos nervosos, acompanhando com isto a redução do fluxo sanguíneo cerebral devido à diminuição da pressão arterial e aumento da resistência vascular.
Deve-se dar preferência ao pentobarbital ao invés do tiopental, pois o índice de mortalidade com o tiopental é maior.
 O coma por pentobarbital deve ser induzido com a dose inicial de 3-5 mg/kg. O objetivo da terapia com barbitúricos é minimizar a atividade elétrica do encéfalo com a manutenção de adequada pressão sistêmica sanguínea (BULLOCK, 1995).

Isabelle Valente Neves1∗; Eduardo Alberto Tudury2; Ronaldo Casimiro da Costa3
 
1 Médica Veterinária Autônoma. E-mail: isabellevalente@hotmail.com

2 Professor Adjunto, Departamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE. E-mail: tudury@nelore.npde.ufrpe.br
3 Professor de Neurologia e Neurocirurgia da The Ohio State University. ,E-mail: ronaldo.dacosta@cvm.osu.edu

Ciências Agrárias, Londrina, v. 31, n. 3, p. 745-766, jul./set. 20101

Nenhum comentário:

Postar um comentário