quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ENCEFALITE DO CÃO PUG: RELATO DE CASO

A encefalite do Pug faz parte do complexo meningoencefalite necrotizante canina, sendo uma doença inflamatória idiopática do sistema nervoso central, que acomete diversas raças de pequeno porte. Foi primeiramente descrita na década de 60 nos Estados Unidos, e em 2006 no Brasil.

A etiologia da encefalite do Pug ainda é desconhecida, mas estudos prévios sugerem que infecções virais pelo herpesvírus canino tipo I ou pelo vírus da cinomose desempenham um papel inicial na patogenia da doença. Acredita-se que a fisiopatologia da encefalite esteja relacionada à uma suscetibilidade genética, à síntese de anticorpos contra a proteína glial fibrilar ácida (GFAP) e à presença de um agente infeccioso. Diversas outras causas foram propostas, como a meningoencefalite granulomatosa, toxoplasmose, necrose cortical relacionada a convulsões, causas metabólicas ou tóxicas, e distúrbios circulatórios; contudo, dificilmente seriam eventos primários causadores da meningoencefalite necrotizante.

A encefalite afeta cães jovens e apresenta sinais clínicos agudos e progressivos, incluindo letargia, depressão, convulsões, ataxia, alteração de comportamento, déficits proprioceptivos, andar em círculos e cegueira. Com menor frequência, observam-se alterações cerebelares e vestibulopatia central. A predileção racial por cães da raça Pug sugere um possível fator genético na etiologia da doença.

O hemograma e exames bioquímicos dos animais acometidos não apresentam alterações dignas de nota. A análise do líquor tipicamente revela aumento moderado a intenso na contagem de células nucleadas, com predomínio de linfócitos; ocorre também alta concentração de proteínas. A tomografia computadorizada ou a ressonância magnética são bastante úteis no diagnóstico, geralmente identificando áreas focais de edema e necrose na região frontal.

Os diagnósticos diferenciais incluem as doenças inflamatórias (meningoencefalite granulomatosa), infecto-contagiosas (cinomose), e as neoplasias. O diagnóstico definitivo pode ser obtido por biópsia cerebral ou necrópsia.

Não existe um tratamento específico para a doença e alguns animais melhoram temporariamente com a administração de corticosteróides. Realiza-se terapia para controle do quadro convulsivo, mas como a encefalite é progressiva, o prognóstico a longo prazo é ruim. O curso da doença é geralmente fatal, com período de evolução variando de dois dias a mais de seis anos, sendo que grande parte dos animais acometidos morre ou é eutanasiada em poucos meses.

No Brasil, foram descritos dois casos da encefalite, sendo este relato, atendido no Hospital Veterinário da FMVZ-UNESP-Botucatu, o terceiro caso reportado até a presente data. O objetivo deste trabalho é, portanto, alertar os médicos veterinários para a existência de tal patologia já que a raça vem crescendo em popularidade. Embora a difusão ainda seja considerada pequena, é necessário o conhecimento sobre as principais afecções que a acometem.

RELATO DE CASO

Um cão da raça Pug, fêmea, de um ano de idade, foi atendido no Hospital Veterinário da FMVZ-Unesp-Botucatu com queixa de apatia, desorientação, sialorréia e taquipnéia há seis dias. Durante a anamnese foi relatada a presença de tremores musculares, andar em círculos para o lado direito, choque em obstáculos e um episódio convulsivo. O animal já havia sido submetido a tratamento prévio com antitérmico, antibióticos, antinflamatórios esteroidais e não-esteroidais, anticonvulsivantes e vitaminas, além de fluidoterapia.

Ao exame físico, o animal apresentava leve desidratação, mucosas normocoradas, hipotermia (37,1ºC), frequência cardíaca de 88 bpm e respiratória acima de 30 mpm, dificultando a auscultação pulmonar. Os demais parâmetros encontravam-se dentro da normalidade.

Ao exame neurológico o animal apresentava-se deprimido, com andar em círculos, propriocepção consciente diminuída do lado esquerdo, posicionamentos tátil e visual ausentes, hemi-estação e hemi-locomoção bilaterais diminuídas, miose bilateral e reflexo de ameaça ausente.

Os exames laboratoriais realizados revelaram uma discreta linfopenia ao hemograma e o líquido cefalorraquidiano (LCR) apresentava aspecto turvo, pH e glicose normais (100 mg/dL), proteínas (94,1 mg/dL) e sangue oculto aumentados, pandy positivo e celularidade aumentada (7620 hemácias/μL e 80 células nucleadas/μL). Na citologia do LCR houve o predomínio de linfócitos pequenos e típicos (89%), neutrófilos segmentados (07%) e células mononucleares (04%), embora a grande quantidade de hemácias livres e íntegras dificultasse a análise.

Durante o atendimento o animal foi mantido em observação, ocorrendo um episódio convulsivo, revertido com diazepam na dose de 0,5 mg/kg/IV. Em seguida, o mesmo apresentou parada respiratória e, mesmo mantido em ventilação mecânica, após cinco horas evoluiu para parada cardiorrespiratória, vindo a óbito.

No exame necroscópico, verificou-se congestão e edema pulmonares, e sufusões em endocárdio do ventrículo esquerdo. No sistema nervoso central, observou-se diminuição dos sulcos cerebrais telencefálicos, aumento moderado de LCR e dilatação dos ventrículos laterais.

Ao exame microscópico, encontraram-se áreas multifocais de necrose e hemorragia, acometendo as substâncias branca e cinzenta, sendo mais acentuadas na substância branca.

Foram observadas também a presença de manguitos perivasculares compostos por células mononucleares, meningite mononuclear, gliose difusa acentuada, sateliose, neuronofagia, neurônios vermelhos e edema. Nas áreas de necrose, foram encontradas inúmeras células “gitter” (macrófagos espumosos) e infiltrado inflamatório mononuclear.

As lesões microscópicas da encefalite do Pug não podem ser confundidas com as descritas nos casos por infecção pelo vírus da cinomose, uma vez que este causa um processo inflamatório desmielinizante e sem áreas de necrose.

O principal diagnóstico diferencial, a meningoencefalite granulomatosa, leva a necrose intensa da substância branca, ao contrário da causada pela encefalite do Pug, cuja necrose afeta preferencialmente a substância cinzenta.

Diante dos achados nos exames físico, laboratorial, necroscópico e histopatológico, pôde-se concluir que se tratava de um caso de encefalite do Pug, enfermidade de rara ocorrência no Brasil.

Ressaltamos a importância de se investigar precocemente qualquer alteração clínica nesta raça, realizando exame neurológico, laboratorial e de imagem.


Romão FG. et al. Encefalite do cão pug: relato de caso. Vet e Zootec. 2010 mar.; 17(1):37-42.

OBS: As duas últimas fotos são do artigo de - RELATO DE ENCEFALITE NECROSANTE DO CÃO PUG NO RIO GRANDE DO SUL: ASPECTOS CLÍNICOS
CAMPELLO, A O*1; LOBO, C2

1 Médica Veterinária, Mestranda Programa de Pós Graduação em Veterinária –
Universidade Federal de Pelotas/RS anecampello@yahoo.com.br
2 Médica Veterinária, Centro de Saúde Animal – Amigos para sempre – Pelotas/RS
caca_lobo@yahoo.com.br








Nenhum comentário:

Postar um comentário